Que ao texto uma menina que está ignorando você

SOBRE NÃO QUERER FAZER AMIGOS

2019.07.09 02:50 lucius1309 SOBRE NÃO QUERER FAZER AMIGOS

Trilha sonora utilizada para a construção do texto:
https://www.youtube.com/watch?v=LWsa0y04btQ
POSSESSED - SEVEN CHURCHES (1985)

E o texto começa assim.
"Qual é o problema?" Mariana perguntou.
"Nada." eu respondi.
Mas havia um problema. Sempre há. O dia em que não houver problemas, não haverá vida. O ato de respirar é em si uma grande vitória.
Decidimos parar para assistir a final da Copa América em uma esfiharia. Meu desejo era de parar num bar, mas eu havia esquecido que não entro em bar nem pra pedir informação, quanto mais pra assistir futebol. Mariana tem sido boa comigo, estamos juntos há quase 4 meses oficialmente e há quase 6 não oficialmente, e ela é uma menina meiga e gentil quase 99% do tempo. Estar comigo num relacionamento qualquer que seja é um ato exaustivo, e não me admira que metade das pessoas que passaram pela minha vida se fuderam de uma forma ou outra. Acredito que o problema esteja em mim, e não nos outros.
Os nervos de Mariana ainda seguem bem. Ela leu tudo o que escrevi das outras, deve ser estranho pra ela ler sobre ela mesma. O escritor continua aqui, só está afastado da garrafa. Bate nas teclas mais devagar do que o normal, talvez por causa do frio ou porque realmente perdeu o jeito pra coisa. Não existe narrativa simples, porque quase tudo o que havia a dizer já foi dito.
Vivemos uma era sem novidades.
Minha vida é patética. Não que patético seja ruim, só é mediano. Sem emoções o bastante. O ser humano quando se condiciona a viver de maneira inconsequente, tarda a se acostumar a viver de forma simples. Eu tenho um histórico grande de merdas feitas na vida, e não culparei a garrafa, as drogas ou as tentativas de suicídio. Eu sempre fiz tudo errado porque gostei sempre de viver assim. Sem ordem cronológica, rotina, pudor e muito menos falta de atrevimento.
Prefiro não falar do passado. Aliás, eu gosto de falar só de algumas partes dele. No geral, escondo os 50% que não me apetecem lembrar.
Domingo fim de tarde, Copa América rolando, Brasil campeão engolindo o Peru, três a um fora o baile e a roubalheira a favor. Bolsonaro levantando troféu, Tite ignorando-o na hora da premiação, movimentos políticos de ambos os lados degladeando sem sentido nenhum. Brigam pelo prazer de brigar, não mais pelo viés ideológico.
Quanto a mim, comi esfiha o bastante e tomei quase um litro de coca-cola, esse líquido abençoado pelo capitalismo e que inclusive foi objeto de uma música pra definir a geração oitentista, por uma banda inteligente, mas que pecava pela recorrente falta de criatividade.
Mas hoje eu não quero falar de música.
Ou do passado.
Nesse mesmo domingo, mais cedo e antes do jogo, eu estava conversando com um colega.
"O fato, Henrique, é que eu mudei meu cabeleireiro, arrumei um que cobrou 12 pratas e fez uma puta cagada na minha cabeça." eu disse.
"E qual foi o motivo da mudança, Carlos? Ele parou de atender?"
"Ele começou a ficar muito próximo de mim. Quero dizer, as três primeiras vezes que fui lá, ele não sabia quem eu era, mas na quarta vez ele já tentou ficar meu amigo, começou a puxar muito assunto, e eu não queria conversar. Eu nunca quero. Pra eu dar cinco estrelas pra um Uber, é simples, é só ele não abrir a boca. E cabeleireiro é a mesma coisa."
"E qual é o problema de fazer amigos?" ele indagou.
"Não sei, acho que não é minha praia. Prefiro colegas."
"Então você não quer fazer amigos?"
"Não." respondi, rindo na sequência. Henrique riu também.
"É sério" prossegui "Eu sou fudido emocionalmente, esse é o tipo de coisa que minha psicóloga precisa ouvir. Parece absurdo não querer fazer amigos, mas proximidade demais me incomoda. Com qualquer pessoa que seja."
Henrique ficou um pouco embasbacado com aquela afirmação.
Voltando pro dia de hoje, segunda.
Brasil campeão, não entrei em botecos e eu e Mariana ainda estamos namorando.
Estou há um tempo bom longe da garrafa. Mas meu emocional é, e sempre será, eternamente fudido.
Acredito que qualquer pessoa que queira ter mais do que três amigos tem algum transtorno afetivo muito sério. Uma carência mais funda do que o mais fundo dos oceanos. Um vazio maior do que do buraco negro mais vazio. Eu honestamente não sei dizer se os buracos negros são vazios, mas foi a comparação que me veio à cabeça e vai se manter aí.
Que seja.
Quase tudo que eu tenho a falar ou a desabafar é dito através de textos. Não sinto a necessidade de que outro ser humano escute, muito menos que me aconselhe. Geralmente começo a ficar irritado com qualquer conversa que dure mais do que cinco minutos. Quero logo encerrar pra poder voltar pra minha solidão. Isso não se aplica com Mariana ou com Luís (que é meu melhor amigo. Talvez o único nesse momento.) O fato é que eu não enxergo em ninguém nada que possa ser construtivo pra mim, li todos os livros que queria ler, ouvi todas as pessoas que queria ouvir, estou aos poucos ouvindo todos os discos que quero ouvir e, mais recentemente, comecei a dar uma chance para os filmes e seriados. Nem tanto por eles, mais por mim. Estava morrendo de tédio. E tédio sempre pode me prejudicar.
Não consigo ficar parado por muito tempo, mas não preciso estar em movimento no meio de outras pessoas.
Lavo a garagem, cuido do carro, faço comida, jogo joguinhos de raciocínio lógico, tomo banho, limpo banheiros, dispenso roupas sujas na máquina, faço balanços financeiros para o trabalho, dou risada de memes e assim meus dias passam muito bem.
Não tenho dificuldade para me socializar. A questão é que eu realmente não quero. Eu realmente não me importo com 99% das pessoas, e muitas delas dizem me amar, eu digo que amo mas eu não sinto absolutamente nada (isso, novamente, não se aplica à Mariana ou Luís). Não quero que me digam o que fizeram ou deixaram de fazer, não quero saber de suas conquistas ou fracassos, pouco importa se alguém morreu ou deixou de morrer. Eu não ligo.
É muito egoísmo pensar dessa forma, e eu reconheço isso, mas como eu acabei de dizer: eu não ligo.
Eu só quero ficar no meu casulo, ganhar meu dinheiro, pagar minhas contas, viajar quando der, trocar peças do carro e comer comidinha bem feita. Todo o resto do mundo pode explodir que não fará diferença. Afinal de contas, nenhuma dessas pessoas é minha amiga. E eu não quero que sejam.
submitted by lucius1309 to desabafos [link] [comments]